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Pandemia abrevia projetos de vida, deixando dor e saudades em mais de 1.000 famílias do Estado

SANTA CATARINA há 1 mês

Santa Catarina ultrapassou nesta quarta-feira (29) a marca de 1 mil mortes por Covid-19. De acordo com dados divulgados pela SES (Secretaria de Estado da Saúde), 1.002 pessoas perderam a vida pela doença. O total de casos chegou a 77.001.

Por trás dos números estão professoresenfermeirosempresáriosmédicoscaminhoneirosagentes de saúdemúsicospaisesposasmães e filhos. A pandemia abreviou sonhos, planos, celebrações familiares. Como as da avó Genair, que aos domingos recebia os dez filhos em casa para fartos almoços em família. Ou de Anisio, o mecânico de São Ludgero que tinha se mudado para casa própria uma semana antes de adoecer.

A escalada de mortes começou em junho, quando foram atingidas as marcas de 200 e 300 óbitos. Apenas em Joinville, um dos epicentros da Covid-19 no Estado, foram registradas mais de 100 vidas perdidas. A Capital, Florianópolis, também viu o número de mortes crescer. Os números saltaram de 17, ao fim de junho, para 54 nesta quarta-feira.

Partida de Genair deixou os domingos mais tristes

A morte de Genair Rodrigues, 82 anos, interrompeu uma tradição familiar. Aos domingos, a família se reunia em torno da mesa para celebrar a vida.

O preparo das refeições ficava a cargo das filhas Ilenir e Solange, duas dos dez filhos do casal Genair e Manoel Jacinto, de 81 anos. Juntos há mais de cinco décadas, os dois estavam aposentados há cinco anos, período em que trocaram o campo por uma casa na área mais urbana, na região central do município de Modelo, no Oeste catarinense.

Genair rodeada pelos filhos e netos e em seu aniversário de 79 anos – Foto: Arquivo pessoalGenair rodeada pelos filhos e netos e em seu aniversário de 79 anos – Foto: Arquivo pessoal

Para Ilenir, a terceira filha do casal, tudo aconteceu muito rápido. “Nós não sabemos como a mãe contraiu”, diz a empresária de 46 anos. Era Corpus Christi quando um médico de pronto-socorro diagnosticou Genair com infecção urinária. A doença que afeta a bexiga fez com que a agricultora aposentada ficasse internada por dois dias. Até então não havia suspeita para a Covid-19.

No domingo de 14 de junho, quem passou mal foi Manoel. O dia que seria tradicionalmente de casa cheia e almoço farto, se transformou numa correria rumo ao hospital.

“O pai falava bem baixinho”, lembra Ilenir. Faltava força nos pés para caminhar, e nos pulmões para respirar. Mas um primeiro exame feito no dia seguinte não detectou o vírus no corpo magro do agricultor. Em casa, sem o companheiro da vida, Genair começou a passar mal.

Ela reclamou de dor no pulmão e foi de ambulância até o Hospital Regional de São Miguel do Oeste. Genair ainda riu de uma piada contada pela filha enquanto era colocada no oxigênio. Deu entrada na unidade no dia 15 de junho, onde foi entubada e depois traqueostomizada. Os fortes remédios, conta a filha, não fizeram mal a nenhum órgão vital, mas os pulmões não se recuperaram.

No tempo em que a mãe esteve internada, Ilenir só conseguiu vê-la através de um vidro, algo que protestou para que acontecesse. “Eu dizia que não era justo a gente não visitar a mãe de perto”, lembra.

O contato físico ficou restrito às visitas que fez ao pai, também diagnosticado com a doença. No quarto onde ele estava, outros dois pacientes com a Covid-19 também era monitorados. Ilenir e os irmãos também positivaram para o novo coronavírus, mas apenas com sintomas leves.

Ilenir e a mãe Genair Rodrigues – Foto: Arquivo pessoalIlenir e a mãe Genair Rodrigues – Foto: Arquivo pessoal

Genir morreu na última quinta-feira (23), após ficar internada por 1 mês e 8 dias. Ela deixa marido, dez filhos e netos. No primeiro domingo sem a mãe, Ilenir fez questão de ir até a casa onde a aposentada vivia com o marido. A ausência da matriarca incomodou, e a felicidade ficou apenas na lembrança.

Como eu vou ficar sem você?

Edinéia Michels perdeu o marido para a Covid-19, o mecânico Anisio Machado, de 34 anos. “Como que eu vou ficar sem você?”, escreveu a manicure em um postagem nas redes sociais poucos dias após a morte de Anisio.

“Tínhamos tantos planos, tantos sonhos. Ampliação da nossa casa, o muro da nossa casa, nossos filhos, tua oficina de caminhão…”.

Os cinco anos juntos foram de conquistas e celebrações. Não faltavam fotos compartilhadas pelo casal. De viagens, festas e jantares com amigos. Sempre com sorriso no rosto, os dois trocavam juras públicas de amor, acompanhadas por apelidos carinhosos. “Meu par”, “amor”, “meu xuxu”.

Anisio e a esposa Edinéia – Foto: Reprodução/FacebookAnisio e a esposa Edinéia – Foto: Reprodução/Facebook

Mudaram para a casa própria, em São Ludgero, uma semana antes de Anisio adoecer. A conquista seria o ponto de partida para que a realização de outros sonhos fosse possível. Planejavam a ampliação do imóvel, construção de muro, uma oficina de caminhão e ter filhos nos próximos anos.

O carinho de Anisio é o que mais faz falta a Edinéia.“Cuidava muito bem de todo mundo, era muito carinhoso, era o amor da minha vida”, diz.

Foi após cuidar de um ranchinho no terreno de casa que o mecânico começou a se sentir mal. Era terça-feira, 2 de junho, quando Anisio teve dores na cabeça e no corpo. O casal pensou se tratar de gripe ou de rinite, já que no dia anterior havia trabalhado no frio e sem casaco. Contudo, os sintomas não passaram.

Por uma semana Edinéia insistiu que o marido procurasse ajuda médica, mas ele não quis. Na sexta-feira daquela semana, dia 5 de junho, após voltar do trabalho, a manicure notou que o Anisio tinha dor aguda e sentia muito frio. Com a piora, ele enfim aceitou ir ao médico, que o diagnosticou com gripe comum. Mandou ele de volta para casa.

No domingo, 7 de junho, novos sintomas apareceram: febre alta, perto dos 39°C, e falta de ar. “Foi quando o médico entrou com alguns remédios e com o pedido do exame de Covid”, conta Edinéia.

Os remédios receitados não fizeram efeito no corpo já doente do mecânico, que precisou ser internado no Hospital Santa Terezinha, em Braço do Norte. Depois foi transferido para o Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão. “De onde ele só saiu para ir para o cemitério”, lamenta a esposa, emocionada.

Anísio ficou internado por 24 dias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), onde precisou ser entubado. Ele morreu na noite de 2 de julho. Segundo a secretaria de Saúde de São Ludgero, o mecânico não tinha outras doenças.

Meu pai faleceu no auge da felicidade

Logo no início de 2012, aos 44 anos, Marcos Molleri decidiu seguir o sonho de ser professor de história.

Morador de Camboriú, enquanto não estava trabalhando como vendedor, cumpria a sua formação pela Uniasselvi. Em 2015, após se formar, passou a lecionar em duas escolas da cidade. Em 11 de junho, porém, a vida foi abreviada pela Covid-19.

A dedicação de Marcos era tamanha que, mesmo com a rotina de trabalho e o cuidado dos filhos, ainda realizou uma segunda graduação, desta vez em Geografia. O vírus impediu que ele também se tornasse Sociólogo. Professor temporário, se dedicava aos estudos para ser efetivado.

Marcos Molleri e a família em sua cerimônia de formatura – Foto: Arquivo pessoalMarcos Molleri e a família em sua cerimônia de formatura – Foto: Arquivo pessoal

“O dom dele era dar aula, a gente fica orgulhoso. Durou tanto tempo para a gente ver isso e ele tomar decisão de retomar estudo, seguir o sonho. Meu pai faleceu no auge da felicidade, tanto profissional quanto pessoal”, diz Renato, de 24 anos, um dos dois filhos.

As atitudes do professor sempre foram para promover os sonhos dos filhos. “Se eu chegasse a ele e dissesse ‘pai, vou fazer tal coisa’, ele me ajudava com o projeto. Tanto eu como o meu irmão. Somos músicos, meu irmão profissional e eu como hobby. Meu irmão se engatou nisso, meu pai ajudou, montou um pequeno estúdio. Mesmo se ele não gostasse do projeto, ele fazia acontecer”, conta Renato.

O pai passou 36 dias internado em coma induzido no Hospital do Coração, em Balneário Camboriú. A família ainda não sabe como ocorreu o contágio. Marcos não tinha nenhuma doença pré-existente.

Ele deixa esposa, com quem estava há 29 anos, dois filhos e muitos alunos das escolas Mário Garcia e José Arantes. Muitos estudantes homenagearam o professor nas redes sociais.

Para Renato, Marcos também deixa um modelo de como ser pai. “Ele sempre levou com bom humor, sorrisos, mesmo com as pancadas da vida. Sempre sorria, erguia a cabeça e fazia acontecer. Eu me espelho e quero ser ao meu filho pelo menos metade do que ele foi pra mim”.

O luto é intransferível e privado, mas hoje é também coletivo

A experiência de perder um ente querido para a Covid-19 pode vir acompanhada de sentimentos de raiva e desamparo. É semelhante ao luto ao perder alguém durante um acidente de trânsito, afirma a professora Ivânia Junn Luna, coordenadora do Laboratório de Processos Psicossociais e Clínicos no Luto da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Segundo Junn, quando a pessoa perde um vínculo, é inserida em uma nova realidade, não encontrando muitas das felicidades e alegrias de antes. Neste processo, o luto simboliza uma crise de significados, levando a alterações existenciais profundas.

“É como se ela [a pessoa enlutada] fosse a um novo país e montasse um novo mapa para se orientar”, explica.

A pesquisadora vêm organizando, junto ao HU (Hospital Universitário), um grupo de apoio para aproximar pessoas que perderam familiares e amigos para a Covid-19. Na experiência, ela percebe que muitos enlutados enfrentam traumas, uma vez que as pessoas têm dificuldades em encontrar sentido na perda.

“O sobrevivente que fica, não se conforma. Ele se questiona por que o outro morreu e ele não. E se pergunta ‘eu o contaminei? Fiz algo de errado?’. A ausência de rituais, como o velório, também dificulta o processo”, destaca a pesquisadora.

Apesar do luto ser um processo intransferível e privado, hoje ele é vivido coletivamente, afirma Junn. “Durante este processo, as pessoas precisam estar juntas. O apoio social é fundamental para o enlutado expressar sentimentos como a perda e a raiva em espaços seguros”.

“O luto é de dentro pra fora. Nos três primeiros meses, a pessoa se retrai mais. E nos meses seguintes, expressa os sentimentos no coletivo. Caso necessário, deve buscar ajuda psicológica. O luto não pode ser negado, é real, e não pode ser invisível. Daqui a alguns meses, as pessoas vão se cansar de falar dele. Mas o luto vai continuar. E deve ser expressado”.

Para obter informações sobre o grupo de apoio psicológico para pessoas enlutadas pela Covid-19, organizado pela professora Junn, o contato deve ser feito pelo email lappsilu@gmail.com.

Memorial da Covid-19

Para eternizar as vidas que deixam lembranças e saudades, o nd+ traz o Memorial Covid-19. Uma homenagem para a posteridade aos moradores de Santa Catarina que partiram na pandemia.

Se você perdeu alguém para a Covid-19, envie a sua homenagem para o memorial. Depoimento, fotos e vídeos devem ser encaminhados ao email redacao@ndmais.com.br com o assunto “Memorial Covid-19”. Os relatos serão publicados após contato da reportagem.

 


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