Risco de rompimento de barragem atormenta moradores do Camorim, na Zona Oeste do Rio

BRASIL há 1 ano
Eles dizem que Cedae já fez relatórios que apontam riscos de acidente. Ministério Público cobra na Justiça medidas urgentes, para evitar inundações em bairros da região.

Moradores do bairro Camorim, na Zona Oeste do Rio, estão perdendo o sono com medo de uma barragem. A Cedae captava água por lá até 2014, só que agora relatórios da própria empresa dizem que há riscos. O Ministério Público cobra na justiça medidas urgentes. Quem mora no caminho da represa tem medo de que ela se rompa.

Moradores dizem que a sensação é de insegurança, que não vivem com medo. O morador Antônio Marcos da Silva Correia fala da preocupação de todos.


“A nossa preocupação hoje não é que, ‘ah, será que pega tudo?’ Não importa. O importante é que onde pegar vai fazer um estrago. Essa rua nossa principal não vai existir”, disse Correia.

Esta é a maior concentração de casas próximas a barragem, na parte alta do bairro. Segundo a Associação de Moradores no local vivem cerca de 200 famílias, algo próximo de 500 pessoas. E os moradores disseram que o morro que se vê da parte baixa é um trecho da barragem. De lá dá para ver o espelho d'água. O medo é que se acontecer um acidente essa água desça levando tudo morro abaixo.

Benedito mora há 30 anos no lugar. Ele teme perder a casa, que fica bem abaixo do morro da barragem.

“Para a gente que mora aqui na comunidade, é preocupante, devido que a gente já viu, pela televisão, essas barragens que vem estourando, que vem se rompendo. Então, é muito preocupante para a gente que mora na comunidade. Ela estourando a gente não sabe o curso que ela pode pegar aqui embaixo. Então, creio que a comunidade esteja na direção da barragem”, disse Benedito.

A preocupação dos moradores foi parar na Justiça. O Ministério Público entrou com uma ação contra a Cedae, responsável direta pela represa, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que deve fiscalizar a segurança das barragens, e o estado do Rio de Janeiro.

Em junho do ano passado, a Cedae encaminhou um relatório ao MP em que a própria companhia aponta riscos. Fotos mostram partes da estrutura da barragem que caíram.

O Ministério Público destacou um trecho na ação: "a possibilidade de ocorrência de novos deslizamentos de terra, coloca em risco a vida de transeuntes que frequentam o local, funcionários da Cedae e do parque, bem como a integridade da barragem".

A Cedae também enviou um relatório de 2017, que apontava os mesmos problemas. Ou seja, há pelo menos dois anos a companhia já sabia das condições precárias de manutenção, conservação e segurança da represa do Camorim.

No fim da ação, o MP pede a reconstrução do muro de contenção, a elaboração de laudos para avaliar as condições de segurança da barragem e que a Cedae elabore e implemente um plano de segurança.

A Justiça ainda não analisou os pedidos do MP e solicitou mais informações ao governo do estado, já que a Cedae argumenta que não opera mais a represa.

Área turística interditada

A equipe do Bom Dia Rio foi até o final da Estrada do Camorim, no Parque da Pedra Branca. A água da Cachoeira Véu da Noiva, no parque, segundo os moradores, vem do açude do Camorim. Mas desde dezembro os visitantes não têm acesso ao local, que foi interditado. Somente guardas do parque, funcionários da Cedae, do Inea e policias ambientais podem passar.

A placa informa que a interdição é para obras, mas os moradores dizem que nada foi feito até agora. O morador Correia diz que ninguém fez manutenção na barragem até agora.

“Ela está lá, interditada. Botaram uma placa "proibido acesso". Antes lá era uma área turística

A empresária Ciça Alves vive há 19 anos nesse sítio por onde passa a água do Açude do Camorim. Ela disse que na quarta-feira (22) moradores vão se reunir com representantes do Inea e da Cedae para cobrar explicações.

“Espero uma notícia boa. Tem que ter uma declaração para a gente tirar esse pesadelo da nossa cabeça”, disse a empresária.

A Cedae disse que até 2014 captava água do açude. Mas, por conta de proliferação de microalgas, parou de usar essa água.

Alerta de segurança

O professor da Uerj, Júlio César da Silva, engenheiro civil e geotécnico, vem acompanhando a situação da barragem do Camorim. Ele diz que a comunidade deveria ser informada sobre os riscos e como se comportar em caso de ruptura da barragem.

“A gente precisaria ter ali um sistema de alerta ligado a um sistema de monitoramento, que indicasse às pessoas em caso de iminência de ruptura e o que fazer. É lógico que elas deveriam ser treinadas também para uma emergência, no caso de evacuação. Deveria fazer simulações em caso de ruptura, determinar manchas de inundação, e no caso das pessoas que estariam dentro dessa mancha de inundação, elas deveriam ser orientadas com rotas de fuga bem definidas. Isso daria às pessoas segurança para dormir tranquilamente”, disse o engenheiro.

Segundo Silva, em caso de ruptura, poderiam estar no meio da mancha de inundações os bairros de Camorim e Vargem Grande. Ele diz que a simulação daria os pontos exatos da mancha de inundação. Tem também o Plano de Ação Emergencial (PAE), que define o que todas as pessoas deveriam fazer em caso de acidente com a barragem.

Silva diz que deveria ser feita uma vistoria de campo, onde seriam avaliadas as condições de estabilidade da barragem. E faria simulações numéricas para verificar se a obra é estável e simulação condições de exercícios, com ações dinâmicas de chuva, que aumenta o volume de água no reservatório, além de verificações visuais.

“Hoje, lá, a gente diz que tem um risco, porque já teve desmoronamento de talude, já tem deformação, por exemplo, dos muros de contenção. Isso já são indícios de problemas”, disse o engenheiro.

O Inea informou, por meio de nota, que como órgão fiscalizador está acompanhando de perto, que já realizou vistorias de campo e notificou a Cedae sobre a situação da barragem.

Também através de nota a Cedae disse que não é responsável pelas terras onde fica a represa do Camorim, não construiu a barragem e nem utilizou o açude para a captação de água. A Cedae disse que realizava a captação da água em um acesso mais abaixo, na Cachoeira Véu da Noiva.

Disse também que já interditou e sinalizou o local e que está, no momento, elaborando um projeto de engenharia para a realização de reparos emergenciais na estrutura principal da represa. Disse ainda que todas as exigências do Inea estão sendo atendidas no prazo.

Por Rogério Coutinho, Bom Dia Rio


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